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Cresci em um ambiente que sempre se falava que o inferno era
cheio de cabeça de padres. Inocentemente consentia a afirmativa por não ter a
ferramenta necessária para um discernimento, até porque a minha idade era um
tanto pueril e isso me causava medo. Com o tempo este ambiente foi reformado,
ganhou novos aspectos e novos personagens. Neste passar de tempo aprendi que o
inferno é algo tenebroso, como aquele descrito por Dante Alighiere na Divina
Comédia e pintado no imaginário popular.
Com as idéias já reformuladas cheguei à maturidade da razão e com ela a certeza de que
a máxima de que o inferno era cheio de cabeça de padres nada mais é que um
raciocínio falho. A razão veio dizer que o inferno, assim como o céu, não era um
lugar, mas um estado. E um estado de
graça é permanecer diante da face de Deus e, o inferno é um está fora dessa
graça. No dialeto popular, na desgraça. De desgraça em desgraça vem o desejo
pífio de que aquele aquém não me simpatizo esteja na desgraça mais profunda: no
inferno.
E o padre? O padre é aquele que executando a oração da Igreja
oferece o Sacrifício eucarístico da Páscoa de Cristo pelos defuntos, aqueles
que purgam na ante-sala do céu: no purgatório esperando a sua comunhão com os
santos e, cujos nomes estão gravados no coração de Deus, o Justo Juiz, que
julga com critérios diferentes dos nossos.
Vejamos como ele julga os condenados; a mulher adúltera (Jo
8, 1-11) que foi pega em flagrante adultério pelos fariseus e pelos escribas e,
que por força da lei seria apedrejada, Jesus não a condena, só pede que ela não
volte a fazer o mesmo. E o ladrão (Lc 23, 43), que apesar de seus inúmeros
pecados, teve como prêmio a graça de gozar na vida futura permanecer ao lado do
autor da graça. Está bem explicito que este foi para o céu. Um relato de condenação
ao que nominamos inferno é o do rico avarento (Lc 16, 19-31), que em agonia
clamava por piedade pedindo que Lázaro molhasse a ponta do dedo para lhe
refrescar a língua, pois estava atormentado em chamas.
Interrogando a Jesus quem seremos após a morte, um grupo de
especuladores religiosos se aproxima dele e procuraram fundamentar a sua
inquirição usando um preceito mosaico, a lei do levirato (Dt 25, 5)[1],
para pode chegar a termo dizendo: “Mestre,
Moisés disse: Se morrer alguém, não tendo filhos, casará o seu irmão com a
mulher dele, e suscitará descendência a seu irmão. Ora, houve entre nós sete
irmãos; e o primeiro, tendo casado, morreu e, não tendo descendência, deixou
sua mulher a seu irmão. Da mesma sorte o segundo, e o terceiro, até ao sétimo; Por
fim, depois de todos, morreu também a mulher. Portanto, na ressurreição, de
qual dos sete será a mulher, visto que todos a possuíram? Jesus, porém, respondendo,
disse-lhes: Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus. Porque
na ressurreição nem casam nem são dados em casamento; mas serão como os anjos
de Deus no céu” (Mt 22, 24-30).
Tendo em vista que na ressurreição todos seremos como “anjos
de Deus no céu” à molde de São Gabriel, São Miguel e São Rafael, conclui-se que
não haverá madre A. frade B, padre C, bispo B..., mas santo (ou em sua
abreviação são) e santa A, B, C, D... Ademais, a única hierarquia é a da
Trindade Santa: Pai, Filho e Espírito Santo.
Ora, se o céu é a graça e o inferno a desgraça, lá não se
encontra nenhuma cabeça de padre, muito menos corpos de padres. Sim, apenas
almas corpóreas[2] de A, B, C e D... E quando
isso acontece? Acontece no momento instante da morte, porque o tempo para quem
morre torna-se atemporal como diz Renold J. Blank: “A
pessoa que morreu vive o juízo final” [auto julgamento] “no momento de sua morte. É neste juízo
final, porém, que acontece a ressurreição do corpo”[3]
glorificado daqueles que viverão como anjos de Deus.
Notas:
[1]
Nesta lei a viúva sem filho masculino é desposada pelo seu cunhado, o primeiro
filho é considerado do defunto e recebe sua parte na herança.
[2]
Almas corpóreas porque não há uma dualidade, mas uma unidade do ser humano:
substância indivisível. (cf. Mt 10, 28).
[3]
Blank. Renold J. Escatologia da Pessoa,
vida, morte e ressurreição. Paulus, 2000.

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